quarta-feira, 4 de julho de 2012

Profecias de Nostradamus ainda despertam medo e admiração

As profecias de Nostradamus completam 455 anos tão fascinantes - e genéricas - quanto sempre foram. E ainda hoje despertam medo e admiração

O francês Michel de Nostredame (1503-1566) fez muita coisa ao longo de sua movimentada vida: estudou medicina, inventou seus próprios remédios, traçou o horóscopo de membros da realeza (entre vários clientes que tinha). Mas talvez seu maior talento tenha sido a capacidade de criar uma aura de mistério em torno de si mesmo. Ao mudar seu sobrenome para Nostradamus (forma latinizada de Nostredame, que caía bem numa época em que a sabedoria da Antiguidade era redescoberta) e escrever centenas de versos enigmáticos que chamava de "profecias", ele caiu nas graças dos poderosos de seu tempo e ainda cativa quase todo mundo que tenha uma quedinha pelo sobrenatural. Para seus defensores mais ardorosos, o profeta anteviu todos os grandes acontecimentos da História entre sua morte e os dias de hoje, sem falar no que ainda aguarda a humanidade no futuro, claro.

A fama atual do vidente francês vem principalmente de Les Propheties ("As Profecias"), nome que deu à coletânea de suas previsões, quase todas escritas em quadras rimadas. Curiosamente, trata-se de uma forma poética que, em português, está mais associada a versinhos infantis, do tipo "Batatinha quando nasce". A diferença é que cada um dos versos de Nostradamus tem dez sílabas, não sete, mas o tipo de rima alternada, com quatro versos no total, é o mesmo.
Ilustração: Samuel Casal
Por estarem reunidas, quase sempre, em grupos de 100, as quadras ficaram conhecidas também como As Centúrias. Ao todo, Nostradamus publicou exatamente nove conjuntos de 100 quadras e um décimo com 42 quadras. Um erro de tradução, muito comum em português, fez com que os textos também fossem chamados de Os Séculos, provavelmente por influência da palavra inglesa centuries, usada para designar tanto centúrias quanto séculos. A primeira coletânea dos versos saiu em 1555 e foi sendo ampliada até a edição final, divulgada após a morte do autor, em 1568.

As datas de nascimento e morte e as publicações das profecias estão entre os poucos fatos indiscutíveis sobre a vida de Nostradamus. Muitos outros detalhes estão cercados de polêmica e dúvida - a aura enigmática ao redor do mais famoso vidente da história só cresceu após sua morte e existem poucas fontes contemporâneas sobre ele.

Sabemos, por exemplo, que o profeta nasceu em Saint-Rémy-de-Provence, no sul da França, e que seu avô tinha se convertido do judaísmo para o catolicismo.

Embora tenha sido tratado como "doutor" por alguns de seus contemporâneos, o biógrafo Peter LeMesurier sustenta que Nostradamus não conseguiu se formar em medicina. Ele foi expulso da Universidade de Montpellier, onde fazia o curso de ciências médicas, quando se descobriu que havia trabalhado como boticário (preparador de remédios, um tipo rudimentar de farmacêutico) - profissão vedada aos estudantes pelo estatuto universitário.

Para um visionário com poderes paranormais, Nostradamus deixou a desejar em várias ocasiões. Um dos casos mais curiosos envolve seu testamento. "É cheio de cláusulas, como o detalhe de que a parte que deixava à viúva seria dela apenas caso não se casasse novamente; a das filhas, quando elas se casassem; e a dos filhos, se e quando completassem 25 anos. Idêntico ao testamento de qualquer pessoa sem nenhum dom profético", diz Kentaro Mori, criador do site Ceticismo Aberto, dedicado à investigação de supostos fenômenos sobrenaturais.

Seja como for, as primeiras versões de As Centúrias fizeram com que Nostradamus ganhasse uma admiradora de peso. Era a rainha da França, Catarina de Medici, que, em 1556, achou ter visto nos versos presságios de tragédias na família real. "O jovem leão triunfará sobre o mais velho/No campo de combate na única batalha/Perfurará os olhos através da jaula dourada/Dois ferimentos em um, depois uma morte cruel". Ocorre que o rei Henrique II tombou numa justa (um duelo "de brincadeira") com Gabriel de Lorges, o bem mais jovem conde de Montgomery. A lança perfurou o capacete do soberano (a jaula dourada), entrou pelo olho direito e saiu pela orelha (dois ferimentos em um). A explicação exata só apareceu depois do acidente (do contrário, ele teria sido evitado), mas a rainha logo pediu ao sábio que traçasse o mapa astral de seus filhos.

Escrito nas estrelas

O detalhe dos horóscopos é crucial porque ajuda a entender o prestígio que o conhecimento esotérico tinha na época de Nostradamus. Boa parte dos pensadores do Renascimento tinha muito respeito pela astrologia. É o caso de Johannes Kepler (1571-1630), responsável por decifrar as leis matemáticas que regem os movimentos dos planetas no Sistema Solar - e que, quando da morte de seu mentor, Tycho Brahe, correu a anotar as posições de Saturno, da Lua e de Marte para confirmar que os astros tinham determinado o falecimento do mestre. Sir Isaac Newton (1643-1727), pai da teoria da gravidade, era obcecado pela decifração de profecias bíblicas. "Costumamos deixar ciência, religião e misticismo separados, mas o fato é que os manuscritos de Newton abordam principalmente estudos místicos e esotéricos", diz Mauro Condé, professor de História e de Filosofia da Ciência da UFMG.

Nostradamus defendia a possibilidade de estimar a ocorrência de eventos futuros com base na repetição da configuração dos astros em eventos passados. Grosso modo, se a disposição astral que anunciou a morte de um imperador ou uma invasão bárbara se repetir, é porque coisas assim vão acontecer de novo.

É possível identificar nas Centúrias influências de augúrios de várias fontes anteriores. O livro bíblico do Apocalipse é um caso óbvio, mas Nostradamus também teria se inspirado em textos de historiadores da Antiguidade, como o romano Suetônio, e nos do monge medieval Joaquim de Fiore. Mas a característica mais marcante das quadras é o fato de elas serem quase impenetráveis à interpretação. "São sempre muito vagas mesmo", afirma Mori. A linguagem não ajuda. Além de uma sintaxe truncada, inspirada na do poeta romano Virgílio (que funciona em latim, mas não tanto em francês), Nostradamus recorre a palavras gregas, latinas, italianas e provençais (dialeto do sul da França).

O uso de datas não é frequente - quando elas aparecem, em geral é preciso esforço para achar uma correlação. Um dos exemplos mais famosos, que ilustra bem esse caráter genérico das previsões, é a quadra 51 da segunda centúria. Nela, o vidente diz: "O sangue dos justos será exigido em Londres/Queimada pelos relâmpagos em três vezes vinte mais seis/A dama antiga cairá de sua alta posição/Muitos da mesma seita serão mortos". A interpretação tradicional é que o texto se refere ao incêndio que devastou Londres em 1666 (multiplicando o número 20 por 3 e somando 6, temos 66), matando muitas pessoas inocentes (os "justos") e destruindo a Catedral de São Paulo, a "dama antiga". O detalhe é que a catedral, até onde se sabe, nunca teve esse apelido. Versões da quadra posteriores ao desastre substituíram "relâmpagos" por "fogo", aparentemente no esforço de deixá-la mais verossímil. O mesmo ocorre na análise de outros versos. Ainda que tenha acertado, o profeta é tão genérico que até hoje ninguém conseguiu prever um acontecimento de monta com base em sua obra. O que há é a correlação após o fato.

Considere outra quadra famosa, a 24ª da centúria II: "Feras enlouquecidas de fome atravessarão os rios/A maior batalha será contra o Hister/Ele fará com que grandes homens sejam arrastados numa jaula de ferro/Quando o filho da Alemanha nenhuma lei observar". Nesse caso, a referência ao "Hister" (nome latino do rio Danúbio na Antiguidade) é lida como uma profecia da ascensão ao poder de Hitler e da Segunda Guerra.

Ao vidente são atribuídas previsões sobre a Primeira Guerra (centúria V-85), e a conquista da Lua (centúria IV-31), entre muitas "façanhas". Sobre o que há pela frente, antes do fim do mundo em 3797, teríamos, por exemplo, o fim do Vaticano ("Bem perto do Tibre, a morte ameaça/Antes haverá uma grande inundação:/O capitão do navio será preso e expulso,/O castelo e o palácio serão queimados" centúria II-93). E a destruição de Paris ("A grande cidade será assustadoramente devastada,/nenhum de seus habitantes conseguirá sobreviver:/Os edifícios, as igrejas e as virgens serão violentados,/A espada, o fogo, as pragas e os canhões nada perdoarão." Centúria III-84).
Diante das teorias mais mirabolantes sobre Nostradamus, é bom recordar a modéstia com que ele se descreve em carta ao filho César, no prefácio de As Centúrias: "Embora, meu filho, eu utilize a palavra ‘profeta’, não atribuiria a mim um título de sublimidade tão elevada".

Saiba mais

Livros
As Centúrias de Nostradamus Comentadas, Abner Macoto, Ivan Guimarães, 2003
As mesmas visões costumam ser interpretadas por vários autores. Esta é uma das mais recentes edições.
Novas profecias de Nostradamus, Erika Cheetham, Nova Fronteira, 1986
A autora é uma das mais conhecidas especialistas na obra do profeta.

terça-feira, 3 de julho de 2012

A origem da pipoca

A pipoca é um alimento geralmente preparado para situações divertidas e informais.
Por Rainer Sousa
Tão popular quanto o próprio cinema, a pipoca é um alimento apreciado por várias pessoas ao redor do mundo. O seu simples preparo e o sabor do milho garante a ingestão de uma fonte de energia e muitos carboidratos. Em geral, vemos as pipocas sendo oferecidas em parques de diversão, festas infantis e eventos. De certo modo, o consumo dessa iguaria se relaciona frequentemente a situações festivas e descontraídas.
Observando quão simples é a sua obtenção, muitos já se perguntaram sobre quem inicialmente teve a ideia de aquecer grãos de milho secos e, assim, descobrir o alimento em questão. De fato, não há nenhum registro que precise o ano ou quem foi o responsável pela invenção da pipoca. Contudo, os indícios mais próximos sobre a origem desse alimento indicam que as populações americanas teriam sido as primeiras, já que o milho integrava sua dieta das mais diferentes formas.
Algumas pesquisas indicam que as primeiras pipocas apareceram do cozimento do milho inteiro, deixado próximo ao calor das fogueiras. Somente depois que os grãos começaram a ser separados para a fabricação exclusiva das pipocas. Ali ainda, não podemos imaginar que a “pipoca pré-colombiana” fosse temperada com o sal e a manteiga que usualmente figuram nosso modo de preparo. Os nativos americanos tinham por hábito empregar o uso de ervas junto ao milho.
Em algumas culturas americanas, o milho era uma fonte de alimento tão importante que acreditavam que esse alimento teria uma forte vinculação às divindades que organizavam o seu mundo. De acordo com antigas tradições, o grão de milho armazenava um espírito dentro de si. Com isso, assim que o grão era aquecido no fogo, esse espírito se irritava até estourar. Essa seria uma explicação mítica para o processo de transformação do milho em pipoca.
Na verdade, todo grão de milho armazena dentro de si uma ínfima quantidade de água. Assim, quando aquecida, essa água se transforma em vapor e exerce uma pressão que provoca o estouro do milho. Do ponto de vista nutricional, a pipoca, quando não leva muito sal e manteiga, pode ser uma fonte de alimentação com baixas calorias e rica em proteínas, ferro e fibras.